terça-feira, 12 de outubro de 2010

Desisti



Ajoelhei inerte enquanto as lágrimas corriam rosto abaixo. Depois de muito tentar, a única palavra que conseguiu sair foi "desisti". Repetidamente falei e falei essa mesma palavra como uma maneira de expurgar o sentimento que eu mais odeio: desistência.

Eu pude ouvi-Lo perguntar "do que", e ignorando o esporro que vem depois do silêncio, respondi "de salvá-lo". Desnecessário dizer que a resposta veio ligeira e sem dó: "É meu, somente meu, todo trabalho. O seu trabalho é descansar em mim". Na sequência, Ele me bombardeou com informações que eu, apesar de já saber, continuo sem aplicar, porque lá no fundo eu havia desistido de salvá-lo do inferno. E desde quando essa é a minha função? Por que raios eu cheguei um dia a acreditar que o propósito da minha vida é tirar alguém do inferno? Se eu sequer consigo salvar alguém de um possível inferno terrestre com problemas palpáveis, quanto mais salvar alguém de um inferno etéreo que eu nem sei bem se existe e porque existe.

Jesus deixou bem claro algumas coisas:
1. Ame o teu Deus sobre todas as coisas;
2. Ame o teu próximo como a ti mesmo;
3. Ide por todo mundo e pregai as boas novas.

Onde é que está a tal da salvação que eu queria assumir como dever supremo da minha existência? O Reino chegou, está aqui, e a única função que eu tenho é de falar dele, arrebanhando os Seus filhos que se perderam para fora das fronteiras desse reino.

Mas meu sentido encruado de salvação ainda reside na ideia abstrata de um céu onde "está o meu tesouro, lá onde não há choro, onde todos cantaremos juntos hinos de louvor ao Senhor", e não na melhoria da qualidade de vida aqui. AQUI.

Convenhamos: que lógica tem Deus fazer uma dimensão material, com seres materiais, para esses seres ficarem na ansiedade maluca de desencarnar e virar somente seres espirituais, num mundo espiritual? Melhor seria se Deus nunca tivesse criado absolutamente nada, nem permitido que as espécies evoluíssem através dos anos. Teríamos todos continuado espírito, imortais, dentro dele, na incubadora eterna e suprema do Espírito Santo. É ridículo, não é? Concordo.

Quando penso no Reino dos Céus como sendo a morada de celestial que Deus quer me colocar estou anulando o processo criativo Dele em fazer um lugar para o qual eu me adequo perfeitamente, pois sou mortal e material. Fui feita para a mortalidade. Tenho que lidar com isso. Existe um começo, um meio e um fim. E a salvação não está em salvar meu espírito, mas me salvar de uma vida completamente medíocre e sem propósito, pois o pó voltará à terra, como o era, e o espírito voltará a Deus, que o deu (Eclesiastes 12:7)

E se esse mundo é ignóbil, a responsabilidade é minha de o fazê-lo digno de mim. Pois Deus, ao cria-lo o fez assim.