terça-feira, 28 de abril de 2009

O lugar mais distante de Deus


É impressionante a força que nos atrai a Ele.

Não tem nada a ver com força no sentido de poder pujante, mas com jeito, com desejo de quem almeja profundamente um relacionamento com cada um de nós de forma única.

Esse assunto é bastante misterioso para a grande maioria das pessoas, e continuará assim enquanto cada uma delas continuar pensando sobre si como uma massa informe detentora de poderes sobre a história, cultura, sociedade, economia e religião, porque tenho aprendido que tudo o que Deus mais almeja de nós é justamente um relacionamento individual e dependente.

Ontem à noite, enquanto eu orava e pedia para Deus me ajudar a ter um relacionamento mais profundo com ele, percebi o quanto quero estar no controle de tudo e o quanto desejo profundamente entregar esse controle a Deus e não consigo.

Percebi que quando quero controlar as coisas quero viver no futuro, quero antever a história, a minha e de quem eu amo, quero certificar-me de que tudo sempre estará bem, como se eu pudesse de alguma forma, agindo bem e fazendo o certo, garantir que eu e quem amo estará feliz sempre. E isso é simplesmente impossível.

Deus me deu o presente de presente. Colocou-me aqui, nessa dimensão onde só posso viver o presente e, mesmo assim, na maior parte do tempo, quero me transportar para o futuro ou fico revivendo o passado, ruminando o que fiz de errado, gabando-me do que fiz certo, e revirando as gavetas empoeiradas dos "se".

Tenho percebido que nada do que eu faça de bom me faz ser mais aceita por Deus. Todos os meus contorcionismos cerebrais para ser "uma boa menina" só faz diferença para quem está aqui nessa dimensão. Mas a verdade é que Deus está se lixando com isso. Ele me ama e ponto. O que faço e o que deixo de fazer não faz a mínima diferença para ele.
Da mesma forma, o que faço de errado não me substitui no coração dele. Não tem nenhum check list de bom comportamento pregado atrás da porta da cozinha permeando minha atitudes. E ele não se afasta de mim quando erro. Certo e errado só existe para me fazer entender que eu não consigo viver pelas leis sem Deus. É humanamente impossível viver as leis sem depender e sem ter um relacionamento com Deus individual, profundo e sincero.

O lugar mais distante que posso estar dele é quando olho para dentro de mim mesma. Quando fico ensimesmada nos meus erros e nos meus acertos - como se essas regras não tivessem sido criadas justamente para mostrar que não sou nada sem ele. Fico longe quando deixo de olhar para ele e olho para minha auto-suficiência, para a minha independência.

Mas Deus não me vê pelos meus olhos, também sei que ele não me vê pela ótica cristã - tenho certeza que ele não é cristão; nem pelos olhos da minha família, do meu filho, dos meus amigos.
Ele tem um jeito especial de me olhar e continuamente deseja que eu me enxergue através dos seus olhos, porque sou parte dele e não há nenhuma parte dele que ele não ame profundamente.







segunda-feira, 27 de abril de 2009

O beijo de Deus

Aprender a pensar sobre as doutrinas cristãs é bem menos empolgante que sentir fisicamente a presença de Deus envolvendo-o com seus braços enormes de Pai protetor. Eu mesmo já tive várias experiências com Deus desse tipo.


Lembro-me que há alguns meses atrás, em meio a uma crise de enxaqueca realmente brava, deitei no chão do banheiro, debaixo do chuveiro, esperando que a água levasse embora a dor que eu sentia. Eu estava no escuro, fugindo da luz, e comecei a pedir para que Deus me tocasse naquele momento. Eu sou mãe e sei o quanto um beijo materno/paterno é capaz de sarar as dores de um filho. E ali, naquele momento, tive mais um encontro com Deus, profundo, tangível, e com muita dor.


Ao contrário do que o cristianismo delivery prega, minha dor não passou. Também não foi diminuindo aos poucos. Ela estava ali como o ribombar frenético de enormes gongos. O alívio não foi físico, foi emocional. Foi na minha alma. Eu sabia que Ele estava ali e que me dava beijos curadores, mas a dor latejou por horas.


Seus beijos trabalharam na minha fé infantil. Mas a minha dor era adulta e lacerante.
Mas como Lewis também fala em seu livro “Cristianismo Puro e Simples”, “O cristianismo pretende falar-nos de um outro mundo, de algo que está por trás do mundo que podermos ver, ouvir e tocar”. Uma realidade paralela - e nem por isso abstrata e fantasmagórica - que convive com a matéria que inúmeras vezes cega nosso entendimento espiritual para as coisas que ultrapassam a existência humana da forma como a conhecemos.


O verdadeiro cristianismo não busca fazer o bem na esperança de alcançar o Paraíso, como se a salvação se resumisse na caridade no sentido mais raso possível - dar esmola e não fazer com outros o que não quer que seja feito consigo-, mas porque essas boas ações já são manifestações do Paraíso; são vislumbres daquela dimensão paralela; são decisões feitas em vida, nessa vida, que ecoam na eternidade.


Não há virtude nem ganho em querer barganhar com Deus, negociando a salvação com boas atitudes, porque tudo o que fazemos de bom, fazemos por causa da porção divina existente em nós, que provém dele, independente da crença que cada um possui. No fundo estamos apenas devolvendo uma diminuta porção do todo existente nele. Estamos, na verdade, cumprindo uma parcela ínfima do propósito pelo qual fomos criados, e isso não tem a ver com religião. Tem a ver com quem somos na essência, porque até homens incrivelmente maus e cruéis demonstram sinais de bondade, seja poupando uma vida, seja dizendo um obrigado.


Vale a pena entender um pouco mais sobre os beijos de Deus atrávés do livro A cabana, de William P. Young (Ed. Sextante). Ficção ou não, fica aí a deixa. Na Saraiva.com.br de R$ 24,90 por R$ 14,00