domingo, 6 de setembro de 2009

Como assim onipresente?


Minha amiga Anna Kau, queridíssima, postou o seguinte comentário sobre a postagem "Deixe Deus dormir":

"Estou começando a ver como colocamos Deus fora da gente. Veja só: até quando nos despedimos, dizemos "fica com Deus", como se fosse realmente possível Ele estar fora e precisar ser colocado dentro. Sempre se diz que devemos ter Deus no coração, que nosso corpo é Seu templo, mas na verdade estamos sempre tratando e falando dele como se estivesse fora. Quanto mais penso sobre isso, mais percebo o quanto Ele esteve e está aqui, o tempo todo, não comigo, mas EM MIM, não contigo, mas EM TI!"

Nem preciso dizer o quanto é real, reveladora e assustadora essa verdade. Quando pensamos em Deus como alguém onipresente, pensamos nos lugares que Ele pode estar ao mesmo tempo, por isso, sempre desejamos estar com Ele. Alguém que pode estar comigo, ou com você em todos os momentos das nossas vidas, em qualquer lugar que estejamos.

Mas o que quero dizer aqui é que "presença" não se trata de espaço, de lugar, de aqui e acolá. Trata-se de "existência", da existência de Deus em mim - do verbo SER e não do verbo ESTAR.

Se penso em Deus como alguém que ESTÁ comigo, isso quer dizer que, eventualmente, eu posso deixar de estar com Ele. Posso desejar que a presença dele não esteja próxima à minha presença. Posso até presumir que Ele está em um lugar que eu não consigo alcançar, ou até entender que eu até posso estar em lugares onde Ele nunca estaria.

Mas se penso que Deus "é" em mim, deixo de ser uma entidade separada dele, para viver submersa nEle e Ele em mim. É uma fusão. [Por isso o sexo é tão bonito, sagrado e completo, pois nesse ato, dois corpos, espíritos e almas estão se fundindo - e essa experiência, que deveria ser a mais próxima daquilo que acontece entre nós e Deus, muitas vezes, é a que mais nos afasta dele].

Quando Deus diz a primeira vez "Eu sou o que sou", no original hebraico "hayah hayah", todo o sentido está em ser, existir. Como disse na postagem anterior, o nome é idêntico ao ser que ele designa. Seria mais ou menos isso: Meu nome é Sofia, e significa "sabedoria" em grego. Eu deveria, portanto, ser a personificação da sabedoria - mas não sou.

E como seria então a personficação do verbo SER? "Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste. (...) porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, que sobre a terra, quer nos céus. E a vóz outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpor da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis..." (Cl 1:13-22).

Eu sou a personificação de Deus - ou pelo menos caminho para o alvo. Não quero ser um "corpo estranho" dentro de Deus, e não quero que Ele se sinta assim dentro de mim.

Quero que o meu "é" seja uma coisa só com o "é" dele... se é que me entende....

sábado, 5 de setembro de 2009

Então orareis assim:



"Pai nosso dos céus(1), teu nome (2) se consagra (3),
teu reino vem, tua vontade se faz, como nos céus na terra também (4)
Dá-nos hoje nossa parte de pão (5).
Perdoa-nos nossas dívidas (6),
uma vez que nós as perdoamos a nossos devedores (7).
Não nos faças entrar em provação,
mas livra-nos do crime"


Essa é a tradução literal do hebraico falado por Jesus, traduzido e escrito em grego por Mateus em seu evangelho (Mt. 6:9-13), e trazido até nós por Andre Chouraqui, poeta, ensaísta e tradutor da Bíblia e do Alcorão.

Eu fiz um resumo dos comentários de Chouraqui e os transcrevi aqui, e são interessantíssimas as diferenças de tradução e de interpretação que nos "perseguiu" esses séculos todos. Que esses comentários tragam luz, dicernimento e mudança na sua vida.

(1) Pai nosso dos céus: "Céus", como conhecido por nós, pertence ao vocabulário religioso, onde tem uma nuance afetiva ausente no hebraico que os designa na multiplicidade real de seus aspectos materiais e espirituais. [Não é, portanto, um lugar etéreo, mas um Reino].

(2) Teu nome: para todo hebreu, o nome é idêntico ao ser que ele designa. Aqui, IHVH Elohîms (o criador dos céus e da terra).

(3) se consagra: A prece não consiste em santificar o nome de IHVH (quem poderia fazê-lo?), mas em afirmar por to de fé que este nome é, nele mesmo, por si mesmo, consagrado. A prece é, assim, de essência messiânica e evoca também o dia de IHVH, aquele em que IHVH se consagra universalmente Rei do céus e da terra. Os dois atos de fé seguintes exprimem isso admiravelmente, falando da vinda certa do reino de IHVH e do reinado de sua vontade em um mundo tornado perfeito pelo casamento do céus e da terra.

(4) teu reino vem, tua vontade se faz, como nos céus na terra também: O verbo está aqui num tempo não cumprido. O hebraico não distingue entre o passado, presente e o futuro, menos ainda entre os múltiplos tempos dos verbos gregos [e do português]. O verbo hebraico, intemporal, ou melhor, onitemporal, se fundamenta no dinamismo do movimento que descreve, sendo cumprido (perfeito) ou não-cumprido (imperfeito). Aqui o imperfeito designa uma ação que ainda não terminou, ainda não foi cumprida, e que se desenvolve no tempo e no espaço num vir a ser. Daí o emprego aqui do presente, ao mesmo tempo histórico e profético, que expressa mais que um desejo, uma certeza de essência messiânica: a consagração do nome IHVH, sua sacralidade bem como a vinda de seu reino. O cumprimento de sua vontade foi e é em todos os tempos, o que exprime bem a forma verbal empregada em hebraico.

(5) Dá-nos hoje: As noções de dádiva e de tempo estão ligadas aqui. Só IHVH sabe não apenas o que é necessário a cada um, mas também quando ele deve receber. É nisso que ele é matricial.
Nossa parte de pão: A incerteza do grego permite ler léhem houquénou: "nossa parte de pão", "aquela que decidiste nos dar", interpretação mais satisfatória que a redundância: "hoje nosso pão deste dia".

(6) Perdoa-nos nossas dívidas: Trata-se do que o homem deve a Elohîms e aos outros homens (...) O versículo afirma a idéia de que no reino de IHVH ninguém deve nada a ninguém [pois tudo é dele] Elohîms não exige nada de ninguém, na plenitude real de sua glória.

(7) Não nos faça entrar em provação: O termo hebraico que está por trás desta expressão significa muito claramente "provação" e não "tentação". Seu primeiro emprego é em Gn 22:1: IHVH põe à prova Abrahâm, e ele não o tenta de modo algum ao lhe propor sacrificar seu filho. (...) A provação está em todos os instantes e desejamos não nos submeter a ela. Este desejo traz consigo o pedido de ser socorrido contra o criminoso, trate-se do inimigo íntimo, presente nos instintos e nos desejos, ou da potência da morte que ameaça esmagar a pessoa, o país e o mundo.