
"Pai nosso dos céus(1), teu nome (2) se consagra (3),
teu reino vem, tua vontade se faz, como nos céus na terra também (4)
Dá-nos hoje nossa parte de pão (5).
Perdoa-nos nossas dívidas (6),
uma vez que nós as perdoamos a nossos devedores (7).
Não nos faças entrar em provação,
mas livra-nos do crime"
Essa é a tradução literal do hebraico falado por Jesus, traduzido e escrito em grego por Mateus em seu evangelho (Mt. 6:9-13), e trazido até nós por Andre Chouraqui, poeta, ensaísta e tradutor da Bíblia e do Alcorão.
Eu fiz um resumo dos comentários de Chouraqui e os transcrevi aqui, e são interessantíssimas as diferenças de tradução e de interpretação que nos "perseguiu" esses séculos todos. Que esses comentários tragam luz, dicernimento e mudança na sua vida.
(1) Pai nosso dos céus: "Céus", como conhecido por nós, pertence ao vocabulário religioso, onde tem uma nuance afetiva ausente no hebraico que os designa na multiplicidade real de seus aspectos materiais e espirituais. [Não é, portanto, um lugar etéreo, mas um Reino].
(2) Teu nome: para todo hebreu, o nome é idêntico ao ser que ele designa. Aqui, IHVH Elohîms (o criador dos céus e da terra).
(3) se consagra: A prece não consiste em santificar o nome de IHVH (quem poderia fazê-lo?), mas em afirmar por to de fé que este nome é, nele mesmo, por si mesmo, consagrado. A prece é, assim, de essência messiânica e evoca também o dia de IHVH, aquele em que IHVH se consagra universalmente Rei do céus e da terra. Os dois atos de fé seguintes exprimem isso admiravelmente, falando da vinda certa do reino de IHVH e do reinado de sua vontade em um mundo tornado perfeito pelo casamento do céus e da terra.
(4) teu reino vem, tua vontade se faz, como nos céus na terra também: O verbo está aqui num tempo não cumprido. O hebraico não distingue entre o passado, presente e o futuro, menos ainda entre os múltiplos tempos dos verbos gregos [e do português]. O verbo hebraico, intemporal, ou melhor, onitemporal, se fundamenta no dinamismo do movimento que descreve, sendo cumprido (perfeito) ou não-cumprido (imperfeito). Aqui o imperfeito designa uma ação que ainda não terminou, ainda não foi cumprida, e que se desenvolve no tempo e no espaço num vir a ser. Daí o emprego aqui do presente, ao mesmo tempo histórico e profético, que expressa mais que um desejo, uma certeza de essência messiânica: a consagração do nome IHVH, sua sacralidade bem como a vinda de seu reino. O cumprimento de sua vontade foi e é em todos os tempos, o que exprime bem a forma verbal empregada em hebraico.
(5) Dá-nos hoje: As noções de dádiva e de tempo estão ligadas aqui. Só IHVH sabe não apenas o que é necessário a cada um, mas também quando ele deve receber. É nisso que ele é matricial.
Nossa parte de pão: A incerteza do grego permite ler léhem houquénou: "nossa parte de pão", "aquela que decidiste nos dar", interpretação mais satisfatória que a redundância: "hoje nosso pão deste dia".
(6) Perdoa-nos nossas dívidas: Trata-se do que o homem deve a Elohîms e aos outros homens (...) O versículo afirma a idéia de que no reino de IHVH ninguém deve nada a ninguém [pois tudo é dele] Elohîms não exige nada de ninguém, na plenitude real de sua glória.
(7) Não nos faça entrar em provação: O termo hebraico que está por trás desta expressão significa muito claramente "provação" e não "tentação". Seu primeiro emprego é em Gn 22:1: IHVH põe à prova Abrahâm, e ele não o tenta de modo algum ao lhe propor sacrificar seu filho. (...) A provação está em todos os instantes e desejamos não nos submeter a ela. Este desejo traz consigo o pedido de ser socorrido contra o criminoso, trate-se do inimigo íntimo, presente nos instintos e nos desejos, ou da potência da morte que ameaça esmagar a pessoa, o país e o mundo.
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