sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Erro de comunicação


Odeio admitir, mas a verdade nua e crua é que a Bíblia só existe por uma falha de comunicação. Ou seja, por causa da distância que se estabeleceu entre Deus e homem.

É bem simples de entender: se o homem não tivesse se distanciado tanto a ponto de não conseguir ouvi-Lo, outros homens não precisariam falar em nome dEle e por consequência, não precisariam ter escrito para documentar suas experiência com Ele.

Aí, veio Jesus, que mostrou o caminho através da sua própria comunhão com o Pai, e disse "Há tanto tempo estou convosco e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai" (Jo 14:8-12).

E para embasar a sua comunhão com o Pai, Jesus teve que citar as escrituras porque, afinal de contas, Ele tinha que falar com uma platéia totalmente desconectada de Deus, que tinha na Lei a sua única ligação com o Pai - justamente aquela Lei no Não que, ao invés de cumprir seu propósito original de mostrar que sem a Graça não é possível "cumprir" nada daquilo, tornou-se o aguilhão que prende todos no abismo da distância. E o que aconteceu?

Bem, durante um tempo depois da pequena amostragem de comunhão com o Pai que Jesus deu, as pessoas viveram naquele entendimento de que não era necessário viver no limbo, na escuridão, totalmente dissociado, e que Deus está à distância de apenas uma oração.

Isso durou quase um século. Então, uma vez mais a distância começou aqui e acolá e aqueles que vivenciaram de perto a real comunhão com o Pai sentiram-se obrigados a também documentar suas experiências - como se fosse possível reproduzir a comunhão com o Pai através de letras. Enfim, "a letra mata, mas o Espírito vivifica" (II Co 3:6). E por quê? Porque a essência da verdade "esconde-se" na comunhão pessoal e intransferível de cada um com o Pai.

Não há salvação por atacado. Por isso a Bíblia é um livro de propaganda e manual de uso de um produto personalizado de Deus para com cada homem, porque o tipo de relacionamento que Ele deseja ter com cada indivíduo não tem precedentes, e por mais que a experiência de Moisés, Elias, Davi, João e Paulo tenham sido fantásticas, elas serviram apenas como exemplo, não como fôrma onde cada "crente" (odeio essa expressão) precisa se encaixar para ser igual.

Vejo hoje muito mais "Paulinistas" do que cristãos. Muito mais gente levando a ferro e fogo as instruções de Paulo do que o exemplo de Jesus sobre como amar e entregar a sua própria vida, em como conversar com o Pai e aprender diretamente com Ele.

Deus, em sua multiforme sabedoria, nos trata como um seres completamente únicos. Então, por que razão Ele nos moldaria à imagem e semelhança de Paulo? - que até teve culhão de dizer "se não conseguem ser igual a Ele, sejam pelo menos igual a mim". Mas Deus, quando nos olha, enxerga a essência, sem levar em conta histórico, crenças, comportamento, filtros, porque a nossa essência vem dele. É a porção divina.

E eu adoro pensar que o egocentrismo de Deus é o que me liga a Ele (não sei você, então não vou incluí-lo nisso) pois me fez com as mãos e soprou em mim a sua própria vida. E eu, antes uma bonequinha de barro, posso dizer que compartilho sua divindade, sou tão deus como ele é Deus: "sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo" (Sl. 82:6), e isso para que nenhum escrito, nenhuma religião (do original religare - religar) pudesse ter sobre mim qualquer poder, qualquer influência, qualquer domínio, porque quando uso desses subterfúgios para me sentir conectada a Ele, admito minha distância. E como é possível viver desconectado de si mesmo?

Mas não quero que me levem a mal. Os mais "crentes" chamarão de heresia, mas não quero com essas afirmações dizer que sou contra a Bíblia ou que não acredito nela. Muito pelo contrário: Assim como Paulo, só tive conhecimento da Graça por causa da Lei. Acredito piamente que este livro fantástico, meu preferido, de cabeceira, seja a Palavra de Deus que destilou da boca e da pena daqueles que usufruíram da presença dEle e passaram a transmitir suas experiência com o Pai para que outros se sintam compelidos a fazer igual ou melhor - que é o que eu faço agora.

Isso me lembra Shekinah: Deus e homem no mesmo lugar. Eu e Ele juntinhos, sincronizados.

E, ó, leia a Bíblia. Mas peça para que Ele fale com você diretamente.

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